domingo, 28 de julho de 2013

Vovó Maria Conga e Pai José de Angola..

"Vó Maria, cadê Pai José? Está na roça colhendo café...
Diga a ele que quando vier suba a escada e não bata com o pé."

Essa negra nasceu em 1728 na África, na região do Congo. Foi trazida ao Brasil ainda menina, retirada cedo de sua tribo. Não sabia nada da vida e do mundo lá fora. Foi vendida no Mercado de Negros do Rio de Janeiro para uma Fazenda de Café em Minas Gerais, quase divisa com o estado de São Paulo. Nunca mais viu ou ouviu falar de sua família. Foi separada deles na hora da captura.
Obrigou-se a aprender a língua dos brancos e a esquecer os costumes de sua terra... Era calada e arredia. Foi adotada pelo amor de uma negra da senzala que também perdeu seus filhos para o homem branco e teve amor e piedade pela negrinha. Ela deu-lhe o nome de Maria, pois sabia da história da mãe de Jesus e como ela sofreu por ter sido separada do filho. Ninguém nunca soube seu nome na África - Maria nunca contou.
Dez anos após sua chegada ao Brasil já entendia mais da vida dos negros escravos da senzala e da vida dos brancos nas fazendas. Compreendeu o que era a escravidão. Tornou-se uma moça bonita e prendada. Recebia olhares dos capatazes e dos homens brancos. Estava com 17 anos. Decidiu que não queria essa vida e pensou em uma maneira de escapar... Conheceu José, moço forte e destemido e tramaram a fuga. Em uma noite encontraram-se com outros negros e fugiram, mas foram capturados, castigados, separados e vendidos. Maria foi para outra fazenda, no estado de Sergipe. E José foi levado ao Rio Grande do Sul. Pensaram que nunca mais se encontrariam e juraram que um dia tentariam ficar juntos de novo.
Passaram-se vinte anos e Maria era agora casada com um dos capatazes da fazenda. Tinha 4 filhos: 3 homens e 1 menina. Nessa fazenda, pelo menos, os escravos eram tratados com menos dureza. Maria apaziguou seu coração e seguiu trabalhando com amor e dedicação. Tornou-se a cozinheira da fazenda e ganhou a confiança dos donos. Lembrava-se de José, mas não o viu mais e não sabia de seu paradeiro.
No sul, José foi trabalhar em uma fazenda de gado leiteiro... Era uma região diferente. Havia o frio e os costumes eram outros. Tentou se acostumar, mas não conseguiu. Sempre pensou em fugir. Lembrava de Maria. Após 10 anos de duros trabalhos, José enfim conseguiu escapar e iniciou sua jornada em busca de sua amada. Passou de fazenda em fazenda e foi seguindo em direção ao nordeste brasileiro... Quando estava quase desistindo de sua busca ouviu falar de uma negra bonita que cozinhava para uma fazenda nos arredores de Pernambuco.
Quando, enfim, encontrou a fazenda onde Maria estava, viu-a casada e com filhos. Entristeceu-se. Nem se dera conta que haviam se passados vinte anos! Foi viver como homem de escolta e jagunço na cidade de Maceió, em Alagoas. Teve muitas mulheres, mas com nenhuma se casou. Era um negro bonito, porém solitário. Com o dinheiro que ganhou, comprou um pedaço de terra com dois amigos mestiços. Eles plantavam e criavam alguns animais. Cada qual em seu pedaço de terra construiu uma casa. Os outros eram casados, mas José vivia sozinho.
Um dia, a fazenda onde Maria trabalhava foi vendida e todos os negros foram alforriados. Ela estava viúva e seus filhos haviam conseguido emprego em Maceió. A cidade estava crescendo e aceitava negros para trabalhar. Ela foi morar com um dos filhos.
Quis o destino que José e Maria se reencontrassem em uma feira de produtos na cidade. Os dois a princípio se esbarraram e não se reconheceram, mas em seguida se olharam e sentiram que o destino os havia reunido novamente.
Maria e José se casaram e ela foi viver com ele em seu sítio. Viveram ainda 50 anos juntos. Durante a noite conversavam na varanda da casa. Descobriram que suas tribos eram vizinhas na África e que o dialeto que falavam era similar. Perceberam que estiveram próximos muitas vezes...
Enquanto viveram juntos preocuparam-se em ajudar as crianças sofridas e perdidas pela escravidão. Também acolhiam em suas terras negros feridos e mal alimentados. Davam abrigo e os ajudavam a se recuperar. Por esses atos de amor eram muitas vezes ameaçados pelos fazendeiros da redondeza, mas como tinham a carta de alforria e a proteção de alguns brancos, não sofriam maiores danos.
Assim, eles cumpriram uma missão de vida no Brasil que deu sentido ao fato de terem sido retirados de sua terra africana. Hoje, esses dois falangeiros abnegados são gentis e amorosos com as crianças e com todos que os procuram. Possuem sua história de vida como exemplo para relatar.

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